O Presidente da República respeitou a tradição e foi até ao Barreiro para saborear a ginjinha, nesta quarta-feira que antecede o Natal, aproveitando para fazer um breve balanço dos últimos dez anos. Esta será a sua última vez fazendo isso enquanto chefe de Estado, mas já garantiu que voltará no próximo ano.
“Hoje vim mais cedo porque ainda estou em recuperação, ainda tenho muitas cicatrizes. Por outro lado, também queria evitar um contacto que pudesse resultar numa gripe A que, nesta fase da minha recuperação, não seria nada conveniente”, começou por afirmar em declarações aos jornalistas.
Quanto ao seu estado de saúde, Marcelo Rebelo de Sousa afirmou que está bem e a recuperar. “Bebi um pouco de ginjinha. Não deveria ter bebido, mas bebi. Era um gesto que tinha de ser feito, pois é uma tradição que se mantém”, garantiu, acrescentando:“Foram dez anos consecutivos e passou a ser uma tradição na minha vida. Para o ano, estarei aqui novamente”.
Quando questionado sobre o que havia brindado, o chefe de Estado respondeu: “Muito simples. Brindei aqui à própria casa onde estávamos, aos presentes, e brindei a Portugal. Mas, se quisesse brindar em nome de todos os portugueses, o que desejaria era paz. A paz é fundamental no mundo e na Europa.”
“Saúde para todos os portugueses e, se possível, é muito importante que as pessoas aprendam a compreender-se e a aceitar-se nas suas diferenças”, comentou.
O Presidente ainda recordou que, há alguns anos, a ceia de Natal era feita em sua casa e que ele era o último a chegar. “Demorava tanto tempo no Barreiro que houve anos em que cheguei às nove e pouco,” relembrou.
Ao ser questionado sobre se já tinha reconciliado com o filho, respondeu apenas: “Em momento oportuno isso acontecerá.”
Ano mais difícil? “Os anos da pandemia”
Marcelo acredita que o período mais complicado da sua Presidência foram “os anos da pandemia”. “O grande desafio que enfrentei ao longo destes dez anos foram os dois anos de pandemia, ter de declarar estado de emergência duas vezes e renová-lo umas dez vezes”, disse, acrescentando: “Foi o problema mais complicado de resolver politicamente e doloroso em termos de decisão.”
Sobre o ano de 2023, além do atual caso das gêmeas, houve a queda do governo socialista de António Costa, que Marcelo Rebelo de Sousa classificou como “uma tempestade perfeita”.
“No dia 7 de novembro, o primeiro-ministro pediu a demissão, e um longo período se abre até às eleições, o que causa uma crise política. Simultaneamente, há um ataque intenso ou um ambiente muito pesado sobre o Presidente da República, que precisa exercer poderes importantes, e a dissolução é um processo difícil. Um Presidente fica em uma situação complexa após uma dupla [com António Costa] que funcionou durante oito anos.”
Quanto ao fato de ter dissolvido a Assembleia da República três vezes neste seu último mandato, Marcelo Rebelo de Sousa destacou as diferenças entre as três ocasiões, enfatizando que, na primeira em 2022, “todos estavam a favor de ir a eleições”, e na mais recente, já este ano, “resultou de uma iniciativa do primeiro-ministro, que quis ir a eleições”, referindo-se à moção de confiança apresentada pelo Governo de Luís Montenegro.
“Mas o fato é que, apesar das três dissoluções, Portugal foi um dos poucos países da Europa a ter apenas dois primeiros-ministros em dez anos. A Itália, a França, a Inglaterra, a Alemanha, os países do Leste e nórdicos, todos tiveram, nestes últimos dez anos, três, quatro, cinco, seis ou sete primeiros-ministros. Os portugueses tiveram o bom senso, ao votar, de encontrar soluções que trouxeram essa estabilidade.”
Conselho de Estado em janeiro
Marcelo Rebelo de Sousa convocou um Conselho de Estado para o início de janeiro. Quando perguntado se os membros que também são candidatos presidenciais estariam presentes, respondeu que não sabia. “São eles que têm de decidir”, destacou.
“A Ucrânia é um tema fundamental na vida do mundo e da Europa. O Conselho de Estado não pode funcionar à espera da eleição dos conselheiros de Estado pela Assembleia da República há seis meses. A Assembleia está em funções há seis meses e estou aguardando há seis meses. A última reunião estava marcada para dezembro para as eleições dos conselheiros. Não me parece sensato discutir decisões essenciais sobre a Ucrânia no Conselho Superior de Defesa Nacional, sem que isso seja debatido no Conselho de Estado.”
O chefe de Estado lembrou que “a posição da Europa em termos de apoio financeiro à Ucrânia compromete os Estados para o futuro”. “Não é natural que um Presidente deixe o cargo sem que o Conselho de Estado possa discutir essa questão.”
Mensagem de Ano Novo? “Será especial”
O Presidente da República afirmou também que irá realizar a sua habitual mensagem de Ano Novo, este ano. “Serão palavras, obviamente, especiais. Hesitei, pois houve Presidentes que o fizeram e houve um que não fez. Ano Novo é Ano Novo e farei uma mensagem curta para expressar os desejos para o Ano Novo.”
Questionado sobre qual acredita ser a sua maior qualidade como Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa destacou que “as pessoas são todas diferentes”.
“Acredito que qualquer um dos candidatos presentes tem condições para realizar uma presidência melhor do que a minha. Provavelmente, serão melhores Presidentes do que eu fui. A pessoa é como é. Para mim, é muito importante que um Presidente goste das pessoas. Não é uma qualidade como Presidente, mas sim como pessoa. Gosto de pessoas.”
[Notícia atualizada às 15h29]
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